05/09/2007

Vovós e totós

Crescendo, Bath, Inglaterra, (13/08/2004)

Essa senhora obviamente esconde um grande segredo.

(Tenho certeza de que já a encontrei num livro da Agatha Christie!)


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Paseo Marítimo, Barcelona, Espanha (07/07/2004)

As vovós latinas se parecem mais com as nossas do que as anglo-saxônicas!


Península Ibérica (parte I)

e-Mail originalmente enviado a familiares e amigos no dia 01/08/2004.

Lembrando que todos os nomes mencionados são fictícios.


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Caríssimos,

Sei que mal tiveram tempo de ler minhas aventuras na Itália, mas é que amanhã parto para mais um mês de viagens e se não relatasse agora minha epopéia ibérica, acabariam recebendo três emails gigantescos, um atrás do outro. E três emails de 10 páginas, nem a senhora minha mãe seria capaz de dar conta!

Sem parábolas deturpadas, sem promessas de brevidade, começa mais um...


Cada vez mais longo diário de viagem do Mauro

Episódio de hoje:

Península Ibérica


Preparativos

Dessa vez os preparativos começaram cedo. Depois de penar muito para achar vagas em hotéis e reservar trens, com um mês de antecedência, na minha saudosa viagem à Escandinávia, resolvi me adiantar. E no começo de fevereiro dei início aos preparativos dessa viagem.

Passagens reservadas, roteiro pronto, faltava a reserva dos hotéis. Mas a maioria se recusava a fechar negócio com tanta antecedência. Conclusão: acampar. O conforto é nulo, mas a economia é boa e não há problemas com reservas. Foi aí que nasceu a idéia de acampar nas minhas viagens de verão. Idéia que minha coluna recrimina até hoje.

Os intrépidos aventureiros da vez foram a já mundialmente famosa (ao menos na região de Piracicaba) Juliana, Ruth – conhecida na viagem à Itália, Eduardo e Natália – dois gaúchos da nossa idade, um morando em Paris e outra vinda de 6 meses na Tunísia (sabe-se lá Deus porque alguém passa 6 meses na Tunísia por escolha própria!), que conheceríamos ao longo da viagem.

Por que tenho viajado com gente que nunca conheci? A resposta bem que poderia ser "pois adoro conhecer pessoas novas!", mas na verdade é "porque o aluguel do carro fica bem mais barato quando rachado por cinco". Aritmética simples.


Barcelona

Na noite do dia 06 de Julho pegamos mais um vôo Ryanair (sinto que minha expectativa de vida baixa a cada vez que decolo), destino ao aeroporto Ryanair Barcelona (que, como de praxe, fica em Girona, cidade a 100km de Barcelona).

O objetivo inicial era passar uma noite no saguão do aeroporto, mas 10 dias de camping na Itália nos fizeram mais desejosos de conforto e resolvemos sair à caça de um hotel, no centro de Barcelona, à 1 hora da manhã, mochilões nas costas (eu carregava, entre mochilão, mochilinha, saco de dormir e barraca, um total de 26kg). Tudo isso em alta temporada.

A verdade é que, depois de bater a porta na cara de muito hotel lotado e de nos desvencilhar de um maluco que queria alugar sua sala por uma noite a módicos 60E (não uso mais o simpático símbolo do euro, pois acho que ele é a razão dos emails indecifráveis), acabamos achando, com certa dose de sorte, um quarto livre de hotel razoavelmente barato. Já eram passadas 3 horas da manhã.

Passados os infortúnios da noite anterior, aproveitamos bem nosso primeiro dia em Barcelona. Atravessamos a rua mais famosa da cidade, Las Ramblas, onde proliferam restaurantes, lanchonetes, bares e lojas de souvenires; visitamos o Port Vell (porto velho) e a Vila Olímpica, regiões reurbanizadas (e bastante modernizadas) desde as olimpíadas; esticamos até a Sagrada Familia, a obra-prima de Gaudí que, mesmo ainda sendo um imenso canteiro de obras (estima-se que a igreja levará ainda umas boas décadas até ser concluída), impressiona; e fechamos o dia atravessando o Passeig da Gracia, uma avenida movimentada onde se encontram prédios de arquitetura catalã, entre eles o La Pedrera, também do Gaudí, dotado de uma fachada toda retorcida e um terraço "orgânico", único.

(A maioria dos termos empregados no parágrafo anterior para descrever os monumentos que visitei foi descaradamente copiada do meu guia de turismo)

Para o segundo dia, deixamos o Parc Güell (indescritivelmente bonito) e o Montjuïc, onde se encontravam os principais estádios do complexo olímpico (lembrados da tocha olímpica que foi acesa com uma flecha em chamas, em 1992?).

E no começo da noite tomávamos uma balsa rumo a Ibiza.

Barcelona é muito simpática e os prédios do Gaudí são fenomenais – muito diferentes de tudo o que se vê pela Europa. Foi minha cidade espanhola predileta.


(continua...)


Barcelona

Casa Batló, Barcelona, Espanha (07/07/2004)

A beleza de Barcelona tem duas fontes: Gaudí e as olimpíadas de 92.

As sacadas me lembram máscaras de carnaval.


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Parc Güell, Barcelona, Espanha (08/07/2004)

Difícil distingüir o que há de mais colorido: se os turistas ou se o parque.


Península Ibérica (parte II)

e-Mail originalmente enviado a familiares e amigos no dia 01/08/2004.

Lembrando que todos os nomes mencionados são fictícios.


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(...continuação)


Ibiza

Uma noite num barco e na manhã do dia seguinte pisávamos em Ibiza, uma ilha, perdida no mediterrâneo, parte do arquipélago das Ilhas Baleárias (que inclui Mallorca, Minorca e Formentera). A capital leva o mesmo nome da ilha, e é lá que se encontram as baladas mais famosas do mundo. Mas toco no assunto depois.

Ficamos numa cidade chamada Santa Eularia des Riu, a 15 km da capital (que não dispunha de campings), a 50 metros de uma praia chamada Cala Nova (minúscula, mas muito limpa e tranqüila). As praias da capital são bem menos interessantes.

A ilha de Ibiza lembra bastante o litoral norte paulista: praias razoáveis, mas infra-estrutura muito precária. O saneamento básico não é dos melhores e os imóveis também não são nada glamurosos. A região vale mesmo pela vida noturna, pois as praias deixam muito a desejar.

O melhor (pior) da viagem ficou por conta da minha exposição cautelosa ao Sol ibítico (essa eu inventei) e suas nefastas conseqüências: "esqueci" de passar protetor em regiões básicas da anatomia humana, como peito e dobras do joelho, e fiquei no sol das 11 da manhã às 9 da noite. É claro que eu me queimei horrores, é claro que eu não consegui dobrar o joelho durante quatro dias, é claro que eu tive febre duas noites. Só não consegui ganhar o troféu "Garoto Corpo Dourado". Ano que vem tento mais uma vez.

(Mamãe, a essa altura do relato, deve estar feliz da vida com o juízo do seu filho que, não há muito, brincou de maneira parecida com o Sol e se ferrou de maneira não muito diferente. Prometo, mamãe, que, dessa vez ao menos, eu aprendi a lição!)

Queimado (heterogeneamente queimado), melado de tanto hidrante e não conseguindo dobrar os joelhos (nem esticá-los completamente!), peguei uma balada em Ibiza. E que balada! Um brasileiro morando lá (que conhecemos misteriosamente e que, me disseram, já foi até segurança do Puff Daddy) nos levou até a mítica Pachá, dizendo "É a mais famosa, mas é bem pequena...".

Por volta das 4 da manhã chegamos na fila (pois balada ibítica que se preza não começa antes das 4 - e não acaba antes das 10!). Uma meia-horinha aporrinhando os hosts e conseguimos entrar com desconto. O lugar era fantástico! Está para quem gosta de balada como Aparecida do Norte para quem gosta de rezar o terço. De pequena não tinha nada: que eu tenha contado, uma meia-dúzia de ambientes, todos muito bem decorados, som saturado na medida certa e apinhados de gente. Sob efeito de analgésicos e de uma dose de whisky com energético (inclusa no convite), até arrisquei dançar!

A disposição do lugar era interessante, mas neófito que era, me perdi algumas vezes: muitos níveis e andares diferentes, terraços, sacadas. Tanto que só acabei conhecendo um dos ambientes minutos antes de sair, ao procurar a saída. E não duvido que tenha deixado de conhecer alguns outros.

Mortos, deixamos a Pachá às 8 e pouco da manhã e algumas horas depois estávamos na balsa novamente, dessa vez rumo a Valência.


Valencia

Valencia estava no roteiro simplesmente por ser o ponto de chegada das balsas ibíticas que melhor se adequava à seqüência da viagem. Tínhamos pretensões de passar a tarde visitando a cidade mas o calor e o cansaço pós-balada-mítica eram tão grandes que passamos quase toda a tarde no ar condicionado de um Mc Donald's muito do hospitaleiro.

De remarcável a respeito da cidade, só me lembro de um prédio em construção com formato de olho (esse promete!) e que seus ônibus circulares eram dotados de telas planas de alta resolução que além de mostrar a temperatura, explicar os pontos turísticos pelos quais passávamos e indicar as próximas paradas, propunham uns passatempos divertidos (exibiam o detalhe de uma foto e você tinha 30s para descobrir de quem se tratava – eu quase desvendei o Vladmir Putin!).

Alugamos um carro e foi tudo o que fizemos na cidade. Não me pareceu ruim, mas também não tenho pretensões de voltar.


Granada

Primeira parada da nossa excursão pela região da Andaluzia. O marco da cidade é uma fortaleza moura chamada Alhambra, e foi tudo o que visitamos.

É um complexo bem vasto, com vários palácios mouriscos, alguns museus e jardins enormes. Momento história: parte da Espanha, assim como de Portugal, foi dominada, durante uma parte de sua história, por muçulmanos (mouros), o que se reflete em sua cultura e arquitetura, por exemplo. E a Alhambra é o monumento mais bem preservado desse período.

É difícil de descrever, mas são construções bastante diferentes. Nunca vi um monumento tipicamente muçulmano para fazer a comparação, mas imagino que seja qualquer coisa de intermédio entre o europeu e o muçulmano. Bastante bonito.

Teria aproveitado melhor a visita se não estivesse passando mal por causa de um resfriado que começava a se instalar. Resfriado esse que, pouco a pouco, foi transmitido a todos os outros membros da viagem. E tome vitamina C efervescente!

(Adendo anedótico: sabiam que Mauro vem de "mouro", que significava "moreno de pele", termo usado para designar os muçulmanos? Ainda bem que sou moreno jambo, senão meu nome não teria nada a ver comigo...)


Sevilla

Segunda e última passagem de nossa extensa excursão pela Andaluzia.

O que dizer de Sevilla? Nunca vi uma cidade tão plana na minha vida! É questão de subir num banquinho e apreciar a vista de toda a região. Fora isso, o casario é interessante (simples mas único), faz muito calor (dizem que pessoas morrem de calor a cada verão) e sua catedral, por mais recomendada por guias que seja, não tem nada de mais, à exceção do suposto (e suspeito!) túmulo de Cristóvão Colombo.

E para finalizar, visitamos a Plaza de Toros de la Real Maestranza, a arena de touros da cidade, que tem uma visita guiada razoavelmente interessante. Sabiam que ela é a única da Espanha que tem formato ovalar? Eu também não! Fantástico, não?

O ponto alto da visita foi quando ficamos cara-a-cara com a Macarena – que ao contrário do que muita gente pensa, não é uma dança ridícula onde se mexem coreograficamente os braços, mas sim a santa padroeira dos toureiros. Ê, Macarena – ah-ê!



(continua...)


Islã ibérico

Alhambra, Granada, Espanha (12/07/2004)

Fonte dos Leões.

Bonito, não? Mas daí aos espanhóis tentarem transformar isso em Nova Maravilha do Mundo é um tanto exagerado!

Se bem que o Cristo Redentor...


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Alhambra, Granada, Espanha (12/07/2004)

Preste atenção nos detalhes da abóboda.


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La Sagrada Família, Barcelona, Espanha (07/07/2004)

Agora você sabe qual era a maior inspiração de Gaudí.



03/09/2007

Memento Mori

Capela de Ossos, Évora, Portugal (14/07/2004)

Já tive recepções mais calorosas...


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Capela de Ossos, Évora, Portugal (14/07/2004)

Isso é uma capela. Pessoas vêm aqui para orar!

(A história dos cadáveres pendurados era interessante. Se não me engano, tratava-se de pai e filho, que de tanto atormentaram a vida da mãe/esposa, foram amaldiçoados a nunca descansar no além-morte. Já ligou para sua mãe hoje?)


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Catacumbas, Paris, França (18/09/2005)

As catacumbas de Paris também têm uma história interessante. No final do século XVIII a cidade sofria com dois problemas distintos: desmoronamentos eram freqüentes porque o subsolo de Paris tornara-se um queijo suíço após anos de extração mineradora; e os cemitérios da cidade se encontravam superlotados. Alguém, então, teve uma idéia brilhante: preencher os buracos das antigas minas com as ossadas que abarrotavam os antigos cemitérios!

De quebra, Paris ainda ganhou um Memento Mori: monumento cujo objetivo é lembrar os indivíduos da efemeridade da vida.

Espertos, não?


Península Ibérica (parte III)

e-Mail originalmente enviado a familiares e amigos no dia 01/08/2004.

Lembrando que todos os nomes mencionados são fictícios.


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(...continuação)


Évora

Depois de Sevilla, deixamos momentaneamente a Espanha e partimos rumo a Portugal. A primeira cidade que visitamos na terrinha foi Évora, a mais conhecida da desconhecida região do Alentejo.

Nosso interesse em Évora residia, única e exclusivamente, em sua Capela de Ossos (lobos uivando). Essa capela, como o nome evidencia, é feita de ossos humanos (correntes rangendo). Sedentos por morbidez desde nossas frustradas visitas à Capela dos Capuchinhos (que tem o mesmo "princípio arquitetônico" mas que estava fechada para reformas) e a uma catacumba sem caveiras, ambas em Roma, não deixamos a oportunidade passar (risadas macabras).

Na entrada, os dizeres "Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos" (raios e trovões). Mesmo tétrico, era muito bom ler novamente meu bom e velho português! Dentro, muitos, mas muitos ossos (crânios, costelas, fêmures). E, de lambuja, na parede, dois esqueletos pendurados (Sabadão Sertanejo com o Gugu). Alto-falantes explicavam, ora em português, ora em inglês, a história da capela. Só não sei o que foi mais aterrador: os esqueletos pendurados ou o inglês do narrador.

Ainda demos uma volta na cidade (que tinha ruelas estreitíssimas e muralhas) e vimos ruínas romanas (os romanos foram realmente muito poderosos, pois por cada país que passo encontro vestígios deles!).

Simpaticíssima, Évora.


Lisboa

Ah, Lisboa! Não tem a magia de Veneza, não tem a beleza de Paris, mas ainda sim, adorei a cidade!

Construída à beira do Tejo e sobre muitos morros (das capitais de terreno mais acidentado que já vi!), outra cidade que sabe jogar com o antigo e o moderno. O centro é bastante antigo, do casario aos monumentos (a catedral, chamada Sé, é tão medieval e feia que parece uma fortaleza!), e seu cenário é marcado por uma profusão de grandes praças e de bondes, que nossos lusos colegas chamam elétricos (é impressionante ver do que eles são capazes em ladeiras!). Se destaca na paisagem o famoso Castelo de São Jorge, no topo do mais alto dos morros, um castelo medieval igualzinho aos dos livros de criança.

A parte moderna de Lisboa fica por conta do fantástico Parque das Nações, uma espécie de bairro construído especialmente para uma tal de Expo 98, que abriga prédios de arquitetura bastante arrojada, muitas lojas e restaurantes. Para quem gosta de vidro e aço retorcido como eu, é um prato cheio.

Por fim, os monumentos mais famosos da cidade ficam num bairro chamado Belém (onde nasceu Jesus Cristo). Lá visitamos a histórica Torre de Belém (de onde partiam as caravelas que descobriram meio terceiro mundo) e fomos agraciados com uma visita guiada, gratuita, de uns 40 minutos (num lugar que visitaríamos fácil e contentemente em 10 minutos). Ao menos a guia era simpática – e com ela aprendemos que "na altura", em português-português, significa "na época".

Ainda em Belém visitamos o monumento aos descobridores e o ótimo Mosteiro dos Jerónimos (porque o circunflexo é pouco usado na terrinha), onde vimos os túmulos de Camões e de Fernando Pessoa, e ficamos embasbacados (outros mais, outros menos) com a beleza do seu claustro, todo em estilo manuelino (me sinto muito sofisticado empregando termos como "mourisco", "casario" e "estilo manuelino").

Mas o melhor de Lisboa eu deixei para o final: salgadinhos! Faz um ano que não como essas delícias que, descobri na terrinha, são uma tradição portuguesa. Fiz questão de almoçar um prato de salgadinhos um dia. Muito gostosos!

(Essa é a hora em que minha mãe tem um chilique. "Além de queimado e resfriado, ele ainda se alimenta mal?! Vai voltar já!")

Lisboa foi minha cidade favorita da viagem.


Interior de Portugal: Óbidos, Alcobaça, Fátima e Coimbra

Antes de chegar no Porto (momento gramática: Porto é igual a Rio de Janeiro – não se diz "chegar em Porto", diz-se "chegar no Porto"), atravessamos o interior de Portugal, parando em toda cidade mais ou menos atraente do caminho.

A primeira foi Óbidos, tida como atração turística mor do país. Uma cidadezinha murada, de 600 habitantes, parada no tempo. Quando a imaginava, pensava numa pracinha, numa igreja e em casinhas feitas de pedra, no interior de uma muralha. Acertei quase tudo, à exceção das casinhas feitas de pedra – eram todas rebocadas e pintadas de branco, ao feitio de Ouro Preto (não era feio, longe disso, mas ainda acho que as pedras seriam mais classudas). Uma simpatia de cidade.

Depois, partimos para Alcobaça, com o simples intuito de visitar o seu mosteiro (coisa que não falta em Portugal é mosteiro!) e os túmulos de Dom Pedro e Inês de Castro. Quem não matou as aulas de literatura lembra que a história de amor do casal foi contada por Camões n'Os Lusíadas – lembrados do "Inês, que depois de morta foi rainha" e "Agora é tarde, Inês é morta"? Lembrando que o Dom Pedro da história não tem nada a ver com os Dons Pedros que reinaram no Brasil.

Vistos os túmulos, partimos para Fátima, numa visita ao Santuário de Fátima: caráter espiritual. A cidade em si não tem nada de especial (é bem feia e provavelmente deve isso ao fato de ter passado de vilarejo a ponto turístico ultra-requisitado da noite para o dia), mas o santuário é bem imponente. Está para fiéis e idosos beatos como a Disney está para crianças de pais de certo conforto financeiro. Não tem outro termo para definir o lugar: é um parque temático religioso. Fiéis de todos os cantos do mundo, pagando as promessas mais diversas possíveis, espalhados por vários pontos especialmente desenhados. O santuário conta até com telões de alta-definição com a programação do dia em vários idiomas! Pitoresco.

Terminamos nossa peregrinação por Coimbra – famosa cidade universitária. Ela não tem nada de especial e é escassa em monumentos – fomos direto ao que nos interessava: a Universidade de Coimbra (onde a maioria dos escritores de literatura portuguesa que aprendemos no colegial estudou direito ou algo do tipo). Parecer? Os prédios são bem antigos – o que dá um caráter importante ao lugar – e a biblioteca, embora seja mais um ponto turístico do que um centro de referências (já que são poucas as pessoas autorizadas a retirarem seus livros), é linda. Mas as salas de aula são tão capengas que eu sou mais minha querida Unicamp.


Porto

Pegue Lisboa e tire a parte moderna. Acrescente um vinho famoso e típico e você tem o Porto. Em termos arquitetônicos, urbanísticos, e folclóricos, é isso. E já que gostei muito de Lisboa, não podia deixar de gostar do Porto.

O que mais me impressionou na cidade foi a quantidade de comércio! Vimos um (belo) shopping, um mercadão (o Bolhão, típico e feio, como todo bom mercadão), comércio de rua, comércio de periferia, camelôs e até comércio ilegal! Em cada canto da cidade tem um portuga vendendo algo, é impressionante!

Mas o melhor da cidade mesmo, como não poderia deixar de ser, é o mundialmente conhecido vinho do Porto. E o melhor de tudo mesmo é que o vinho do Porto é produzido a 100 km da cidade (o que, em termos de Portugal – que é minúsculo – é chão pra cacete!) e engarrafado na vizinha, Vila Nova de Gaia.

O que importa, afinal, é que existiam dezenas de caves (armazenadoras de vinho), das quais uma meia dúzia oferecia degustações gratuitas. O único problema é que a maioria das degustações era acompanhada de uma visita guiada a suas instalações (o que é legal na primeira vez, mas enche o saco a partir de então, quando tudo o que se quer é encher a cara gratuitamente). Assim sendo, algumas caves depois e já meio alto do vinho (que nunca pensei pudesse ser tão doce!), dominava todo o processo – da colheita das uvas ao engarrafamento. Uma visita cultural.

E, finalmente, foi no Porto que tivemos acesso ao bom e velho jeitinho português. Procurando as caves, paramos um velhinho na rua para pedir informações. "Onde ficam as caves?". Muito simpático, ele nos responde: "Ah! É perto", sorriso no rosto. Alguns instantes depois, vendo que ficaria nisso, Eduardo, levemente irritado, pergunta "Sim, mas perto onde?". Só então o bonachão nos indica o caminho. Que nem era tão perto assim.


(continua...)


Lisboa

Torre de Belém, Lisboa, Portugal (14/07/2004)

Daí partiram as caravelas que "descobriram" o Brasil.


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Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa, Portugal (14/07/2004)

Obra-prima da arquitetura manuelina.


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Padrão dos Descobrimentos, Lisboa, Portugal (14/07/2004)

Consegue encontrar Pedro Álvares Cabral?


Metafotografia

Torre de Belém, Lisboa, Portugal (14/07/2004)

Xis.


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Torre de Belém, Lisboa, Portugal (14/07/2004)

A difícil arte de enquadrar.



Portuguesas com certeza

Praça Central, Óbidos, Portugal (16/07/2004)

Simpática cidadezinha histórica portuguesa.

Você também pensou que ela pudesse não se parecer com Ouro Preto?


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Claustro do Mosteiro, Alcobaça, Portugal (16/07/2004)

Aquela que depois de morta foi rainha está enterrada aí, junto de seu esposo.

Camões, por sua vez, jaz no Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa. Junto de Pessoa.


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Vila Nova de Gaia, Porto, Portugal (17/07/2004)

Urbanismo é genético.


02/09/2007

Península Ibérica (parte IV)

e-Mail originalmente enviado a familiares e amigos no dia 01/08/2004.

Lembrando que todos os nomes mencionados são fictícios.


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(...continuação)


Madrid

Terminada nossa interessante viagem por Portugal (que, ao contrário do que muitos pensam, não foi descoberto por brasileiros), retornamos ao território espanhol para, dessa vez, conhecer sua capital, Madrid.

Tudo o que posso dizer é que esperava mais da cidade. Ela é bonita, mas ordinária. Avenidas largas e sofisticadas, prédios antigos e bonitos, mas nenhum monumento digno de respeito. Seus maiores atrativos mesmo são museus. E visitamos dois: o do Prado e o Centro de Arte Reina Sofia.

No primeiro vimos muitos quadros antigos famosos, dentre eles "O Jardim das Delícias" do El Bosco, e as Majas (vestida e desnuda) do Goya. O Reina Sofia, dedicado à arte moderna (que descubro apreciar cada vez mais), trazia como carro chefe o incontornável "Guernica", do Picasso. E de lambuja ainda vimos uns quadros do Dalí (que cada vez mais me decepciona como pintor – os quadros dele são lindos quando vistos reproduzidos, mas ao vivo são frustrantes!) e conheci um pintor pop-art chamado Roy Liechtenstein – que achei muito interessante.

Fora museus, nos decepcionamos ao ver a estátua do Ángel Caído, no Parque do Retiro. Meu guia a descrevia como sendo uma das atrações turísticas mais espantosas e visitadas da cidade, já que era uma das únicas esculturas do mundo representando o diabo. Esperava ver algo muito feio, chifrudo e de tridente na mão, e tudo o que encontrei foi um anjo (bem apessoado até) em pose de "Oh, Deus, estou caindo!".

Guardei o melhor de Madrid para o final. O melhor da cidade (e de nossa visita à Espanha) ficou por conta da tourada que assistimos na Plaza de Toros. Mais típico que uma tourada em Madrid só o bife à milanesa em Milão que não comi!

Esperava algo mais cruel. Não que assistir a um pobre touro sendo maltratado durante 15 minutos enquanto se toma uma cerveja e se come batatas-chips não seja cruel. Mas, sinceramente, esperava algo pior. O ritual é razoavelmente complexo, mas depois de um tempo se começa a entender o que se passa. Eu pensava que existiam apenas o toureiro e o touro, mas existem vários outros personagens: aqueles que cansam o touro (antes de o deixarem para o toureiro), os cavaleiros lanceiros (que dão uma espetada no touro e que fazem toda a platéia ficar morrendo de dó do pobre cavalo, para o qual sobra a invariável resposta do touro angustiado), os juízes, a bandinha, os corneteiros e outros cujas funções não decifrei.

Na noite em que estivemos lá, foram três toureiros e seis (pobres) touros. E segundo um espectador, todos os nove foram lastimáveis. Todos os três toureiros sobreviveram (nem uma chifradinha!, por mais que torcêssemos contra). O mesmo não posso dizer dos touros.

No final das contas, foi uma experiência bem válida e bem espanhola. Só não sei se sentia mais pena dos touros ou dos toureiros. Os primeiros sofriam bastante, mas os toureiros vestiam uma roupa ridícula, faziam gestos pouco másculos e ainda eram vaiados com freqüência (por uma arquibancada mais vazia que cheia).

Mas, no geral, Madrid deixou a desejar.


Segóvia

Uma passada rápida por Segóvia, que ficava no caminho para Bilbao, que ficava no caminho para San Sebastián (nossa próxima parada). Cidade simpática, antiga, casario de pedra (como deveria ser o de Óbidos!). Seus marcos principais são um aqueduto romano impressionantemente bem conservado (e enorme!) e um castelo de contos de fadas, o Alcazar. Agradável parada.


Bilbao

Nosso objetivo na capital do país basco (uma região da Espanha que tem um idioma muito bizarro que, ao contrário do catalão – falado em Barcelona, Baleárias e Valência – não lembra em nada o espanhol) era visitar o Museu Guggenheim. E foi apenas o que fizemos. E por fora (pois Madrid já tinha saciado nossa fome cultural).

E o lugar é impressionante! Fantástica arquitetura. É tão único que qualquer foto, por mais mal enquadrada que esteja, parece obra de arte. Fiquei lá uma meia-hora, pasmo. Gostei muito mesmo.


San Sebastián

As praias de San Sebastián são consideradas as praias urbanas mais bonitas de toda a Europa. Quando planejei a viagem, pensei "É verão, e tudo o que quero é sol e mar". Mas depois da minha frustrada experiência sol-e-mar em Ibiza, meu lema passara a "sombra e água fresca". E tudo o que fiz em San Sebastián foi dormir na praia, ao abrigo do sol, besuntado de protetor solar.

A praia era realmente bonita, mas, ainda sim, nada de fenomenal (dá para entender porque estrangeiros procuram o Brasil e a América Central quando pensam em praias paradisíacas). E assim terminou nossa rápida excursão pelo país basco. Sem sol e sem ETA.

Terminava também nossa visita à Espanha.


(continua...)


Tourada vista por um leigo

Plaza de Toros, Madri, Espanha (18/07/2004)

Apresentação. Ao som de uma musiquinha estilo "Speedy Gonzales", os 3 toureiros do dia se apresentam na arena, acompanhados de todo o staff auxiliar.


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Plaza de Toros, Madri, Espanha (18/07/2004)

Limpando a arena. Depois da apresentação, todos deixam a arena. Os "rastros" dos cavalos são recolhidos, uma recepção digna de um touro bravo.


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Plaza de Toros, Madri, Espanha (18/07/2004)

Cansando o touro. Antes que o toureiro volte à arena para sua apresentação, o touro é preparado pelos auxiliares do matador. O gordinho com a capa irrita o bicho enfiando espetos coloridos em seu dorso. O homem a cavalo se encarrega de manter o animal longe da mureta (melhorando a visibilidade do espetáculo).


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Plaza de Toros, Madri, Espanha (18/07/2004)

Entrada do toureiro. Quando o touro já está bem cansado e com o cupim coberto de sangue, entra o matador na arena para provocá-lo com sua capa.


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Plaza de Toros, Madri, Espanha (18/07/2004)

Olé! O toureiro provoca, o touro investe, o toureiro se esquiva. A torcida grita "Olé!". Isso quando tudo dá certo... Não cheguei a ver toureiro levar chifrada, mas na maioria das vezes o toureiro provocava, provocava, o touro não se mexia - e a torcida vaiava.

Ver um homem vestido daquela maneira, gesticulando feito menina afetada e ainda sendo vaiado, me fez pensar que talvez o papel do touro não fosse o mais humilhante.



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Plaza de Toros, Madri, Espanha (18/07/2004)

Executando o touro. Depois que o touro não se agüenta mais em pé, chega o momento final: el matador atravessa o crânio do pobre animal com uma espada. Se o golpe é bem executado, o bovino desaba desfalecido e a torcida vibra; caso contrário, o coitado estrebucha, desaba aos poucos, e vai recebendo espadadas até morrer - e quanto mais demora para morrer, mais a torcida vaia.


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Plaza de Toros, Madri, Espanha (18/07/2004)

Desfile do cadáver. Morto o touro, o toureiro deixa a arena. Tudo o que foi enfiado no animal é retirado, o sangue pelo chão é coberto com areia, o cadáver é preso a cavalos e arrastado pela arena, num desfile um tanto mórbido.


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Plaza de Toros, Madri, Espanha (18/07/2004)

E a torcida... Espera impaciente pela próxima dupla de touro e toureiro.

Pessoas de classe, em sua maioria.


Arquitetura arrojada

Guggenheim, Bilbao, Espanha (20/07/2004)

Pátio interno.


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Guggenheim, Bilbao, Espanha (20/07/2004)

Tomada geral. É tão estranho que chega a ser bonito.


Península Ibérica (parte V)

e-Mail originalmente enviado a familiares e amigos no dia 01/08/2004.

Lembrando que todos os nomes mencionados são fictícios.


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(...continuação)


Andorra la Vella

Nosso último dia na península Ibérica foi dedicado a esse belo e importante país que é Andorra. A única vez que tinha ouvido falar dele foi às vésperas da Copa de 98, quando a seleção brasileira (na época comandada por Zagallo e Dunga) teve a pachorra de só ganhar de 2 a 0 da seleção do país, composta por pessoas das mais diversas profissões – menos jogadores de futebol.

Como não tinha expectativa alguma, não tinha como me frustrar. E, assim sendo, fui positivamente surpreendido por Andorra. Encravado no meio dos Pirineus (momento geografia: os Pirineus são uma cadeia de montanhas que separa a França da Espanha), o que dificulta (e muito!!) o seu acesso, o país sabe tirar proveito de sua localização ímpar com o intuito de atrair turistas. E vive do turismo, acredito: pois tudo o que se vê nas cidades são hotéis!

Andorra também é famoso por ser uma zona franca (livre de impostos), o que faz com que os produtos eletrônicos lá sejam 25% mais baratos que na França, por exemplo. Uma pena não termos tido tempo suficiente...

O casario é bem interessante, e suas fachadas são feitas de pedras negras – o que torna ainda mais interessante a paisagem.

Por fim, além de comermos no Mc Donald's, lá visitamos uma praça que ficava no topo de um prédio (!!) e o menor parlamento do mundo (que realmente era muito pequeno e ainda abrigava uma penitenciária!).

De Andorra só trago boas lembranças (porque os eletrônicos tiveram de ficar para outra oportunidade).


Conclusões

Espanha: o mais impressionante do país e que pudemos constatar ao atravessá-lo de carro é a diversidade de climas e relevos. É impressionante, mas vimos desde desertos à la Telma & Louise, a regiões montanhosas (com picos cobertos de neve num verão de matar!) e outras de vegetação bastante densa e úmida. Mas não pude deixar de ficar decepcionado: esperava praias mais bonitas e uma capital mais interessante. Dizem que o charme espanhol reside em suas noitadas que, à exceção de uma em Ibiza (que realmente foi muito boa), não puderam ser desfrutadas devido ao ritmo de viagem.

Portugal: não esperava grandes coisas do país mais pobre da Europa ocidental. E fui positivamente surpreendido. Lisboa é ótima e o interior, muito agradável. Os salgadinhos realmente foram bem apreciados, fora os inúmeros doces (a maioria deles para mim até então desconhecidos) que se encontram aos montes e a preços bem acessíveis. E o melhor de tudo é poder, depois de um ano, ler português nos letreiros e ouvir português em todos os cantos (e compreendê-lo às vezes).

Só sei que, levando em conta o fato de que emendei essa viagem com a da Itália e que continuei dormindo (mal) em campings, tudo o que queria, depois de passar por Madrid, era minha boa e velha cama. Talvez se me encontrasse em outro estado de espírito tivesse apreciado mais o país de Cervantes. Quem sabe?

***


Bem, é isso. Tão longo quanto o da Itália, menos engraçado devido às circunstâncias, menos inspirado devido ao cansaço. Parto amanhã e ainda tenho muito coisa para preparar (o que inclui uma mala) – por isso fico devendo a versão resumida.

Se não morrer dirigindo na mão esquerda um carro cujo volante fica no lado do carona e se sobreviver ao Kosovo, terão, no espaço de um mês e meio, mais dois relatos gigantescos de minhas viagens à Grã-Bretanha (Magical Mystery Tour) e ao Leste Europeu (Rumo ao Kosovo). Até a próxima, amiguinhos!

Grande abraço a todos,
Mauro


Andorra

Andorra la Vella, Andorra (21/07/2004)

Não fossem os pássaros, Andorra só seria homenageada por uma foto...


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Casa de la Vall, Andorra la Vella, Andorra (21/07/2004)

Pode não ser grandes coisas, mas o país certamente é seguro!

Estátuas Originais

Praga, República Tcheca (24/04/2004)

Ângulo ingrato.


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Estátua de Oscar Wilde, Dublin, Irlanda (02/08/2004)

P-O-D-E-R-O-S-A!


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Bratislava, Eslováquia (04/09/2004)

Saindo do buraco.

01/09/2007

Magical Mystery Tour (parte I)

e-Mail originalmente enviado a familiares e amigos no dia 30/09/2004.

Lembrando que todos os nomes mencionados são fictícios.

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Ilustríssimos,

Os boatos de que teria pisado numa mina na Bósnia ou de que teria sofrido mutações devido à exposição radioativa na Ucrânia não se aplicam (minha orelha esquerda é pontuda mas é congênita). Continuo vivo, todos os dezenove dedos no lugar e, para sofrimento geral, nada conciso.

Começa assim, mais um...

Diário de viagem do Mauro (nome fictício)

Episódio de Hoje:

Magical Mystery Tour


Prelúdio

Antes que mais alguém pense que meu último parafuso foi-se de vez, a ponto de batizar uma de minhas viagens de "Tour do Mistério Mágico", explico a origem do nome (que embora não tenha sido cunhado por mim, veio de mentes igualmente criativas).

Em 1967, enquanto seus cérebros se dissolviam em LSD, os Beatles resolveram fazer uma viagem (nos dois sentidos) pelo interior da Inglaterra, sem roteiro pré-estabelecido, acompanhados de amigos e jornalistas. Tal viagem foi filmada, editada e, pouco tempo depois, lançada nos cinemas – e se consagrou um dos maiores fracassos dos quatro.

Mas o álbum do filme, que leva o mesmo nome, era muito bom e é, até hoje, o meu predileto do grupo (não sou nenhum especialista do assunto, mas "Strawberry Fields Forever", "Penny Lane", "Hello Goodbye" e "All You Need is Love" são clássicos e se encontram todos lá).

Com tudo isso em mente e desejoso de uma épica viagem pelo coração do Reino Unido – não Mãe! Épica não é gíria atual para "regada a LSD" – achei (achamos) que o nome cairia bem.


Vichy, 1500 AC

Tribos gaulesas começam a se assentar no que é hoje o coração da França.

Lembrando que o Tom Jones é galês. O Asterix sim era gaulês. Mas Deus sempre será brasileiro.


Vichy, Julho de 2003

Pedro e Mauro (nomes fictícios), em meio ao aprendizado da língua francesa, descobrem o amor – Pai! Deixa eu terminar a frase... – comum pela Grã-Bretanha.

Não sei o porquê de tanta fixação por essa terra, mas desde a adolescência sonhava em conhecê-la. Tomar chá das cinco, comer Fish & Chips, pegar chuva e ver névoa. Isso Só pode ser efeito colateral de doses maciças de rock britânico. E acredito que o mesmo se aplica ao Pedro, beatlemaníaco.

E assim fechamos o pacto de atravessar juntos, de cabo-a-rabo, nossa querida Inglaterra. E o que algumas pessoas viam como uma odisséia gay, eu e Pedro encarávamos como nossa sagrada peregrinação à Terra Santa.


Agosto 2004

Quando se tem oito horas de aulas por dia, um ano demora três para passar. E quando se espera com ansiedade por algo, demora quatro. Mas mesmo quatro anos um dia passam e, em 2 de Agosto, partíamos, eu e Pedro, mala e cuia, rumo à Irlanda.

A viagem originalmente planejada sofrera algumas modificações. Ao invés de apenas a Inglaterra, resolvemos visitar também Irlanda, Irlanda do Norte, Escócia e País de Gales (afinal, uma vez lá, por que não dar uma passada na vizinhança?). E o carro pequeno à la Mister Bean com o qual planejávamos fazer todo o percurso teve de ser substituído por um (pouco) maior e mais novo devido à falta de opção.

Assim, depois do meu quinto vôo RyanAir no período de um mês, pisava em solo irlandês (cada vez mais acredito que acidentes aéreos fazem parte da crendice popular).

Na mochila, saco de dormir, barraca, panelas, fogareiro, quatro quilos de enlatados, três litros de toddynho e pão de forma – pois a moeda da rainha é forte até face o euro! E no meu ouvido, o Pedro. "Você acha mesmo que vale a pena trazer tanto enlatado?". "Sugiro que tomemos muito Toddynho para comemorar!". "Eu toparia pagar um pouco mais e dormir em albergues só para não ter que carregar essa barraca!". "Estou de férias, não gosto de carregar peso". "Prefiro passar sede a carregar uma garrafa d'água!".


(continua...)

Dublínias

Lord Edward Street, Dublin, Irlanda (02/08/2004)

Tem alguma coisa que me incomoda nessa foto, não sei dizer o que é...


***


Guinness Storehouse, Dublin, Irlanda (02/08/2004)

Dublin não é uma cidade de se encher os olhos. A cara, no entanto...



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Arredores do National Museum, Dublin, Irlanda (03/08/2004)

Os ricos também tomam leite.

Magical Mystery Tour (parte II)

e-Mail originalmente enviado a familiares e amigos no dia 30/09/2004.

Lembrando que todos os nomes mencionados são fictícios.


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(...continuação)

Irlanda – Dublin

Nosso ponto de partida foi a terra natal da Guinness (da cerveja e do livro). E se por um lado a imagem de pessoas sistematicamente usando chapéus verdes não foi confirmada, por outro a fama de apreciadores de álcool desse povo rapidamente o foi: nunca vi tanto bar (chamados "pubs") na minha vida! Pub em cima de pub do lado de pub na frente de pub. De sede, definitivamente, um irlandês não morre.

E para abastecer tanto bar, haja cerveja. De longe, a mais famosa delas é a Guinness. E, atenção para o plural, algumas fábricas da Guinness ficam a poucos quilômetros do centro da cidade. Numa delas opera um museu bastante interessante que não deixamos de conferir.

O que mais nos tocou nesse museu foi um filminho, de uns dez minutos, que mostrava um mestre barrileiro em atividade. Nunca pensei que fazer um barril fosse tão complicado! São muitas e distintas fases, e quase tudo é feito no olho – sem réguas, sem compassos. Ficamos lá, eu e Pedro, dez minutos de boca aberta, embasbacados. Nunca mais olharei para um barril com os mesmos olhos!

Depois de visto o museu, subimos ao seu sétimo e último andar, onde opera um... pub (!) com vista panorâmica da cidade, e desfrutamos da nossa "pint" (pronuncia-se 'paint' e é equivalente a pouco mais de meio litro) de Guinness inclusa no ingresso. É uma pena a cerveja ser proibitivamente cara – pois ela é igualmente muito boa! A espuma se pode comer de colher, feito sobremesa. E nem precisa estar muito gelada para descer sublimemente bem. Irlandês é um povo feliz.

É claro que nossa passagem pela Irlanda não ficou só na cerveja. Também visitamos igrejas, museus, parques e jardins, como não pode deixar de ser. E quanto mais visitava a cidade, mais de dava conta: Dublin não é feia, mas também está longe de ser bonita.

O maior pecado da cidade é a falta de senso estético (o que abunda em cidades como Paris e Roma, por exemplo). Do lado de um belo monumento – do lado mesmo! – se encontra uma mecânica – com seus letreiros e fachada tipicamente horrendos. Sem falar no castelo da cidade, igualmente desastroso: prédios de vários estilos e tamanhos e cores diferentes, construídos uns na extensão dos outros – o samba-do-criolo-doido sendo cercado por muros e chamado de castelo.

Para concluir nosso passeio cultural, resolvemos visitar um museu que trazia os dois maiores artefatos históricos irlandeses: o Livro de Kells e a Harpa de Brian Ború. O primeiro é um manuscrito bem antigo e bonito, mas que é muito bem guardado e protegido de mãos alheias (qual a graça de olhar um livro através de uma redoma sem poder folheá-lo?). O segundo é a harpa que, supõe-se, pertenceu ao maior guerreiro irlandês de todos os tempos, responsável pela expulsão dos vikings do território tem quase 1000 anos. Pedro: "Isso é muito massa! O cara vence os vikings, libera seu país, e vai para casa, tocar harpa!!".

Se a bendita harpa não estivesse nos logos da Guinness e da RyanAir (que é irlandesa – adoro esse povo!), os seis euros do ingresso teriam entrado para o meu já vasto hall de Investimentos Cretinos, que inclui meu poncho auto-desintegrante de três euros e meu travesseiro de bolso fino-feito-papel de nove.

Só concluindo, a Irlanda pode não ser dos países mais ricos e sua capital pode não ser das mais belas, mas o irlandês é tão simpático e despretensioso, e a cerveja divina, que Dublin e a Irlanda são lugares que recomendo.


Irlanda do Norte – Belfast

Deixamos então Dublin, rumo a Belfast, capital da Irlanda do Norte.

O país é uma aberração política. A Irlanda, depois de muito brigar, conseguiu sua independência (perante o Reino Unido) em 1917. Depois de muitas pendengas e em busca de reconhecimento, o país acabou aceitando ceder aos britânicos uma pequena parcela ao norte do seu território, cuja maior parte de seus habitantes era protestante, e não católica, como a imensa maioria dos irlandeses. Nascia assim a Irlanda do Norte.

O problema é que as minorias católicas do país não se identificavam com o Reino Unido, protestante, preferindo assim fazer parte da Irlanda. E é em meio a esse cenário que nascem os conflitos entre protestantes e católicos na Irlanda do Norte. Surgem o IRA, do lado católico, e uma dezena de outras milícias menos remarcáveis do lado protestante. Belfast é separada por muros e inúmeros atentados terroristas são cometidos nos anos que se seguem, ora por um lado, ora por outro.

Tem seis anos o IRA assinou um armistício e desde então a violência na região retrocedeu bastante. E a Irlanda do Norte novamente voltou a ser um local seguro para turistas – e sem saber até quando essa trégua vai durar, eu e Pedro aproveitamos para incluir mais um país em nossos currículos.

Chegamos em Belfast num final de tarde e nossas pretensões no lugar eram zero – sabíamos que não era turístico, estávamos lá apenas para contar países.

Nosso albergue (uma espelunca, por sinal, onde o chuveiro era gelado e o locker uma despensa aberta a qualquer um que quisesse se aventurar) ficava perto de uma casa de bingo. Como estávamos cansados demais para fazer turismo mas ainda era cedo demais para dormir, resolvemos participar da jogatina.

Primeiro demos uma passada nos caça-níqueis, mas tivemos de deixar rapidamente o lugar pois o Pedro resolveu brincar numa máquina que não estava livre e foi o alvo da ira de uma irlandesa-do-norte viciada em jogo. Entramos então no grande salão de bingo e fomos surpreendidos com os olhares de todos que ali estavam – tanto velhinho!

Constrangidos, sentamos numa mesa e tentamos descobrir por nós mesmos o mecanismo do jogo. Não era muito simples, então resolvi perguntar a uma velhinha do lado como funcionava. Embora nós dois falássemos, a princípio, inglês, não entendia uma palavra do que ela dizia – e a senhora idem (e olha que acredito dominar bem o "th" deles!).

Vendo-nos em apuros, um senhor dos seus cinqüenta e poucos anos resolveu nos ajudar. Explicou-nos pausadamente o mecanismo do jogo e esforçou-se para entender nosso inglês-americano-com-sotaque-brasileiro. Ficou espantadíssimo ao descobrir que vínhamos do Brasil (se tivéssemos dito vir de Marte acredito que sua reação teria sido mais contida).

Aprendido o mecanismo do jogo, nos aventuramos na jogatina. Só para descobrir que oito anos de curso de inglês-americano são de utilidade nula quando se está na Irlanda do Norte...

Alguém precisa avisar aquele povo que o que eles falam não é inglês. Não entendíamos absolutamente nenhum número que era cantado! Se não fosse por um telão misericordioso, as três libras da cartela encabeçariam a lista dos meus Investimentos Cretinos. One era "ua", two era "tiã", five era "fai", six era "sex", seven era "sven" e eight, meu Deus!, eight era "ieiriã". Oitenta-e-oito? "Ieiri-ieiriã"!!

Terminada a rodada, três libras mais pobres, era hora de partir. Mas o senhor que nos ajudara também estava de partida e se propôs a nos mostrar a cidade de carro. Fiquei um pouco assustado, mas vendo como era gentil e depois de ler no meu guia de turismo que o irlandês-do-norte é muito hospitaleiro, acabei achando boa idéia acompanhá-lo. Pouco tempo de conversa e já tínhamos afastado qualquer suspeita de que o velhinho fosse um seqüestrador ou terrorista. Era pura e simples hospitalidade, agravada pelo fato de sermos exóticos brasileiros. O desconhecido se chamava Cornelius e estava aposentado por invalidez – uma operação mal-sucedida deixou uma de suas pernas paralisadas.

Enquanto Cornelius nos mostrava a cidade (que realmente não tinha nada de mais!), ia nos explicando sua história. E nada melhor do que ouvir da boca de um católico a história da Irlanda do Norte! Ele nos explicou o ódio que eles têm dos ingleses e a vontade de ver seu país unido com a Irlanda; nos mostrou os muros que separavam os dois lados da cidade e apontou alguns edifícios, dizendo estarem repletos de espiões britânicos. Nos presenteou com uma bandeira (bandeirona!) da Irlanda e nos levou para tomar chá no prédio de um amigo (o Pedro acha que era seu filho, mas a verdade é que em alguns momentos não entendíamos nada do que ele nos dizia). Segundo ele, o apartamento do amigo/filho tinha uma bela vista da cidade (mas uma bela vista de uma cidade sem-graça é uma vista sem-graça).

Enquanto nos conduzia, atendeu várias vezes o telefone. Era comovente ver a alegria na voz dele quando contava para as pessoas do outro lado da linha que estava mostrando Belfast para dois jovens brasileiros. A única que parece não ter gostado muito do que ouviu foi sua mulher – não éramos os únicos loucos da estória andando com desconhecidos!

Seu amigo/filho, Kevin, também nos recebeu muitíssimo bem. Ofereceu-nos chá, café, refrigerante, cerveja, biscoitos amanteigados... Ofereceu-nos até seu computador para que pudéssemos conferir nossos emails. Só não entendíamos uma palavra do que ele falava (e foi então que descobrimos todo o esforço do Cornelius em falar um inglês o mais próximo possível do americano). Uma das poucas coisas que entendi é que ele me chamava de Mario. Toda vez que eu fazia uma piadinha, Kevin dava risada, socava o ar e falava "Mario...".

Papo vai, papo vem, perguntamos o porquê de tamanho espanto nos olhos dos locais quando entramos no bingo. "Vê-se de longe que vocês não são daqui". "Por causa das roupas?". "Não, por causa da pele...". "Mas no Brasil somos considerados brancos, como vocês...". E Cornelius nos explicou, enquanto Kevin ria espantado, que nós éramos mestiços para os padrões britânicos. Eu, mestiço!

Depois de mais de duas horas na companhia desses adoráveis desconhecidos, fomos deixados na porta do nosso albergue. Sãos, salvos e maravilhados.

E no dia seguinte visitamos a cidade por conta própria – o que foi bem tranqüilo, dada a escassez de atrações turísticas do lugar. Vimos o memorial Titanic e a doca onde o barco foi construído, a torre inclinada do relógio e, principalmente, as ruas católica e protestante, separadas, uma da outra, por grandes muros. Cornelius tinha nos dito que embora para ele não fosse seguro andar em região protestante, para turistas a travessia era livre de problemas. E tudo transcorreu em paz. E o mais impressionante foi o memorial ao IRA que visitamos na rua dos católicos – para eles o IRA não só é legal como também, cultuado.

No começo da noite partíamos rumo à Escócia, numa balsa com supermercado, cinema, cassino e Burger King.


(continua...)


Ulster

Albert Memorial Clocktower, Belfast, Irlanda do Norte (04/08/2004)

A culpa não é do fotógrafo: a torre é realmente torta. O único monumento da cidade, e ele é torto!

E muita gente já morreu por Belfast...


***


Falls Road, Belfast, Irlanda do Norte (04/08/2004)

Belfast é dividida em dois, como a antiga Berlim. De um lado, os protestantes (pró-Reino Unido), do outro os católicos (pró-Irlanda). No detalhe, o muro de Falls Road, lado católico.


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Loja sortida, Belfast, Irlanda do Norte (04/08/2004)

Diversidade é a alma do negócio.



Homens de saias

Buchanan Street, Glasgow, Escócia (05/08/2004)

Ditado escocês: "O verdadeiro gentleman escocês sabe tocar gaita de fole, mas não o faz!"


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Estátua de Sir William Wallace, Edinburgh, Escócia (08/08/2004)

a.k.a. Mel Gibson.


Magical Mystery Tour (parte III)

e-Mail originalmente enviado a familiares e amigos no dia 30/09/2004.

Lembrando que todos os nomes mencionados são fictícios.


***

(...continuação)


Escócia – Glasgow, Highlands e Edinburgh


Chegando em território escocês, ainda na balsa, uma loira me pergunta se tudo tinha transcorrido bem. Digo que sim e recebo um chocolate. A safada fazia isso com todos, mas era apenas uma amostra de que a hospitalidade continuaria na Escócia.

A balsa parava no sudoeste do país e de lá seguimos de trem rumo a Glasgow, 150km a nordeste. Pela janela podíamos antever aquilo que a Escócia tem de melhor: belas paisagens.

Já estava escuro quando chegamos em Glasgow. Ficaríamos hospedados na casa de um brasileiro que fez seu mestrado em Lille e que estagiava lá. E tudo o que tínhamos era um endereço. Mas as pessoas foram tão prestativas, do policial que nos explicou qual ônibus pegar, passando pelo motorista do ônibus que nos deixou viajar de graça, às velhinhas que nos explicaram o caminho até o dado endereço, que em questão de meia-hora já estávamos acomodados.

Chegamos a tempo de pegar uma balada. A vida noturna de Glasgow é bastante agitada, várias opções (muitas gratuitas), música para todos os gostos. Recomendada.

No dia seguinte visitamos a cidade, que embora não seja feia, é carente de monumentos. E ouvimos o primeiro tocador de gaita de fole – típico. No final da tarde alugamos um carro. Bom e velho carro britânico, com o volante do lado direito. E as aventuras com esse pobre carro foram tantas que merecem um capítulo a parte.

De posse de um carro partimos para as Highlands – tida como a região de beleza natural mais impressionante de toda a Europa. Depois de muitas peripécias no trânsito britânico, chegamos, no cair da noite, às margens do lago Ness. Paramos o carro no que parecia ser uma reserva florestal, investigamos o terreno – e resolvemos acampar. No meio do mato, do lado da estrada, do lado do lago Ness. A magia do momento superou todo e qualquer desconforto.

Chegado o dia, continuamos nosso passeio pelas Highlands, beirando o lago (que é bastante comprido, mesmo que não muito largo). O lago é meio sombrio – mesmo em pleno verão ninguém se aventurava a mergulhar em suas águas escuras e frias. E o fato de não fazer muito sol na região só colaborava (aliás, sol foi algo que vi muito raramente em quinze dias de viagem em pleno verão!). Procuramos o monstro, não o encontramos, seguimos viagem.

Ouvimos outro tocador de gaita-de-fole, parado do lado da estrada. E nos bastaram dois tocadores para concordarmos com o ditado escocês que diz: "Um verdadeiro scottish-gentleman sabe tocar gaita-de-fole – mas não o faz!".

Passamos por Inverness, capital das Highlands (pequena e agradável) e nos despedimos da civilização que, sabíamos, não encontraríamos nos próximos dois dias.

No primeiro dia fizemos as costas Oeste e Norte. E no segundo, a costa Leste. E dá-lhe paisagem! Uma melhor que a outra. Impossível descrever, difícil sentir em fotos – só estando lá para experimentar, infelizmente.

As montanhas são baixas (embora o nome Highlands nos leve a crer o contrário) mas são muito numerosas. Não há postes de energia elétrica, praticamente nenhuma civilização por áreas bem extensas (cidades diminutas e bastante espalhadas) – tudo o que se tem são estradas, paisagens e ovelhas (ora sobre as paisagens, ora sobre as estradas – estradas de pista única! Quando se avista um carro no outro sentido deve-se encostar e esperá-lo passar).

Muitas paisagens, muitas ovelhas. A sensação de liberdade é imensa. Se eu quisesse me vestir de Carmen Miranda e dançar na boquinha da garrafa poderia fazê-lo sem medo de ser visto (o Pedro o fez e não tinha ninguém por perto para recriminá-lo).

Tentamos acampar novamente no meio do mato na noite seguinte, mas não conseguimos. O primeiro lugar que escolhemos tinha o mato muito alto. O segundo era infestado de insetos (chegamos a começar a montar a barraca quando fomos atacados por uma horda de mosquitos e tivemos de abandonar a empreitada). No terceiro não conseguimos esconder devidamente o carro sem fazer com que o mesmo atolasse. Desistimos e nos contentamos com um albergue – só encontrado depois de rodarmos por horas em busca de civilização.

No dia seguinte alcançamos o ponto mais ao norte do Reino Unido (e fazia um frio de danar apesar dos calendários marcarem verão) e, depois, enquanto caminhávamos rumo ao sul, pegamos um desvio para visitar as "impressionantes Câmaras Mortuárias Celtas de Fulano e Beltrano". Tão impressionantes que só a encontramos, por acaso, quando voltávamos para a estrada principal, decepcionados. Conceito interessante: uma atração turística no meio-do-nada e mal sinalizada. Devemos, eu e Pedro, fazer parte do seleto grupo de turistas que já as visitaram (encontraram). E com medo de uma maldição milenar, desistimos de almoçar no lugar. Além de cachorros, Pedro tem medo de assombração.

Nosso único arrependimento highlander foi não ter encontrado um kilt minimamente barato para vestirmos nessa parte do trajeto. Procuramos em Glasgow, pouco antes de nos aventurarmos na região, mas fomos informados de que kilts custavam em torno de 400 libras (o que dá mais de R$2000!). E além disso, o que o Pedro diz é verdade: "Se eu ponho uma saia, se você põe uma saia, nós parecemos bixas. Mas se esses caras põem saia, eles parecem guerreiros. Só eles conseguem parecer imponentes e respeitáveis usando saias – nós não!".

Conhecidas (e bem conhecidas) as Highlands, voltamos para Glasgow para um pernoite e outra balada. E na manhã seguinte partimos rumo a Edinburgh – capital e cidade mais bonita da Escócia.

Edinburgh é linda. No centro da cidade há um morro, razoavelmente alto, e no topo desse morro há um imenso castelo. Vê-se o castelo de qualquer ponto da cidade. Um castelo medieval, imponente, escuro, de pedra, cheio de torres, masmorras e canhões. E dentro desse castelo fizemos uma visita guiada por um escocês típico: de saias, bigode, senso de humor apurado e total desdém pelos ingleses.

O casario da cidade combina com seu castelo – austero e escuro. Uma cidade grande e medieval ao mesmo tempo.

Ainda demos a sorte de visitá-la durante o Fringe Festival – festival de artistas de rua que atrai muitos turistas e movimenta toda a cidade durante uma semana. Por cada canto que passávamos havia alguém fazendo algo: engolindo espadas, contando piadas, se contorcendo, tocando música, engolindo espadas. Não bastasse a beleza do lugar...

Foram cinco dias de Escócia muitíssimo bem aproveitados. Recomendada.



(continua...)


Highlands

Lago Ness, Sul das Highlands, Escócia (06/08/2004)

Nessie é tímida e não quis aparecer...


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">Blackwater River, Sul das Highlands, Escócia (06/08/2004)

A Guinness é irlandesa, mas a nascente fica na Escócia.

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Costa Oeste, Highlands, Escócia (06/08/2004)

A altitude média da região é relativamente baixa (em torno de 700m). O nome vem da localização (extremo norte da ilha britânica).


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Costa Oeste, Highlands, Escócia (06/08/2004)

Este não é o Monte Sinai.


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">Costa Leste, Highlands, Escócia (07/08/2004)


Detalhes:

1) A pista de mão-única. As estradas highlanders são assim: quando aparece um carro no sentido oposto, o negócio é passar pro "acostamento".

2) As ovelhas. Muito mais recorrentes na estrada que outros veículos.

3) Mão inglesa. Onde foi parar o volante?

4) Reflexo no pára-brisas. Lonely Planet Britain: eu recomendo!