Lembrando que todos os nomes mencionados são fictícios.
***
Prezados,
Começar é sempre o mais complicado. Pensei em uma parábola como parágrafo introdutório: um agricultor, pensando em preparar sua lavoura, decide semear. As primeiras sementes ele joga num terreno arenoso. Depois, ele semeia um campo seco. Em seguida, um campo pedregoso. E, finalmente, as sementes acabam por cair em terra macia e bem adubada. As primeiras sementes...
Eu nunca lembro o que acontece com cada semente. Sei que umas são queimadas, outras têm raízes pouco profundas, outras são comidas por pássaros, e que as únicas que não se ferram são as da terra macia – mas não lembro a relação terreno/destino das sementes...
Depois de dois parágrafos inspirados, o objetivo desse email: relatar mais uma das minhas viagens, da maneira mais longa possível. Está ficando batido, mas o que é batido acaba virando tradição. E tradição é bom! Então, mantendo a tradição, começa mais um...
Diário de viagem sem fim do Mauro
Episódio de hoje:
Itália
Preparativos
Sempre gosto de exaltar como são cansativos e complicados os preparativos das minhas viagens. Dessa vez não poderei fazer o mesmo: a grande verdade é que decidi conhecer a Itália quinze dias antes de embarcar, não reservei nada, planejei muito pouco. Estabeleci cidades que gostaria de visitar, encaixei essas cidades de maneira (semi) lógica num planejamento tosco, comprei uma barraca de camping (para não ter que reservar albergues) e convidei mais quatro malucos para embarcarem nessa furada comigo.
Os quatro malucos foram os já célebres Juliana, Ewerton e Pedro, acompanhados de Ruth, veterana nossa que mora em Paris e que nunca havia conhecido.
Consumidores fiéis, voamos novamente de Ryanair (aquela companhia baratíssima cujos aeroportos têm teto de lona) e, sem atrasos nem bagagens extraviadas, dia 25 de Junho pisávamos em território italiano.
Monza e a arte de acampar
Chegamos de tarde na Itália, no aeroporto Ryanair Milano (que fica em Bérgamo, a 1h de Milão...), alugamos um carro e tentamos visitar a cidade. Meia-hora na Itália foram suficientes para confirmarmos o que todos já tinham nos alertado: a sinalização é caótica. Seguindo a estrada para Milão, nos deparamos com uma amigável placa dizendo "Milano 28km". Continuando pela mesma estrada, um bom tempo depois, outra placa: "Milano 18 km". Felizes, já que a estradela suspeita que seguíamos havia algum tempo parecia nos levar ao lugar certo, avistamos uma outra placa, dez minutos depois: "Milano 30 km".
Resolvemos ficar por Monza mesmo, que estava perto e tinha um camping promissor (nas cercanias do autódromo de fórmula 1).
Encontrar o camping foi um belo exercício de italiano. Com frases sem sujeito nem verbos e quarenta minutos de tentativas, conseguimos encontrar o que procurávamos.
O pão-duro Ewerton e sua magistral barraca nos reservaram a melhor surpresa da noite (já que o chuveiro era frio e a água, não potável): não tinha como não rir do desespero do garoto ao constatar que sua barraca (que custara quase três vezes menos que a minha, vagabunda) já estava montada. "Mas será que é só isso mesmo?". Era. E dormiram sempre dois lá, numa barraca onde mal cabia um. Nascia o mito do Château d'Ewerton.
Milano
No dia seguinte, miraculosamente, conseguimos chegar em Milão. Cidade na qual, nas palavras de um amigo milanês, "não há nada de muito bonito para se visitar".
Meu guia turístico recomendava, como obras-primas da cidade, a fachada de sua catedral (que levou alguns séculos para ser concluída) e a Santa Ceia, de da Vinci, que ficava no refeitório de um cenáculo. Acontece que a catedral estava em reformas (assim como grande parte da Europa), e sua fachada coberta de tapume. E a Santa Ceia, infelizmente, precisava de reserva com muita antecedência (coisa que, obviamente, não tínhamos).
A cidade não é feia. É rica (uma das mais ricas da Itália), berço da moda (muitas lojas de grife) e antiga. Se soubesse que conheceria buracos como Nápoles (descrita posteriormente), talvez tivesse dado mais atenção a Milão.
Mas a grande decepção mesmo foi minha tentativa frustrada de comer um bife à milanesa. Dentre toda a gama de restaurantes que se mostrava para nós, resolvemos escolher o mais barato (por motivos óbvios!). Pedimos três peitos de frango à milanesa e um bife à milanesa. Os peitos de frango chegaram rápido, esperei pelo bife. Quando todos já tinham terminado seus pratos e minha fome estava brava, resolvi perguntar para o garçom, bravo, o que era do meu bife. E o safado me respondeu "Bife? Mas vocês não pediram bife...". O ignorante não tinha entendido meu italiano! Também, não o culpo: o pessoal do norte não está muito habituado com o italiano bem falado de Roma.
Moral da história: contentei-me com um Big Mac nada à milanesa.
Para concluir nossa frustrante passagem por Milão, nossa odisséia ao tentar abandonar a cidade. Mais difícil do que chegar lá, só sair mesmo. Nosso objetivo era Bérgamo (onde passaríamos no aeroporto para pegar o Pedro, que se juntava a nós no segundo dia de viagem). Fizemos o que qualquer um faria e seguimos placas para a cidade. Depois de meia-hora fazendo isso, chegamos a uma trifurcação sem nenhuma sinalização (sádicos italianos!). Aleatoriamente, escolhemos um dos caminhos para, meia-hora depois, voltarmos às primeiras placas que tínhamos avistado. Escolhemos um outro caminho, também aleatoriamente e, meia-hora depois, voltamos para o mesmo ponto de partida. Ainda mais calmos que de início, resolvemos pegar um caminho alternativo. Mais meia-hora e chegamos num ponto com uma placa "Bérgamo para cá, Nada de Bérgamo para lá". Plácidos, seguimos rumo a Nada de Bérgamo. Quarenta minutos de engarrafamento depois, chegávamos ao aeroporto de Bérgamo.
Milão? Eu recomendo!
Verona
O que dizer de Verona? Simpática, bonitinha. E nada mais. Visitamos praças, andamos pelo centro medieval, conhecemos a Casa di Giulietta (a namorada do Romeu). Sem desventuras, nada de mais.
Começar é sempre o mais complicado. Pensei em uma parábola como parágrafo introdutório: um agricultor, pensando em preparar sua lavoura, decide semear. As primeiras sementes ele joga num terreno arenoso. Depois, ele semeia um campo seco. Em seguida, um campo pedregoso. E, finalmente, as sementes acabam por cair em terra macia e bem adubada. As primeiras sementes...
Eu nunca lembro o que acontece com cada semente. Sei que umas são queimadas, outras têm raízes pouco profundas, outras são comidas por pássaros, e que as únicas que não se ferram são as da terra macia – mas não lembro a relação terreno/destino das sementes...
Depois de dois parágrafos inspirados, o objetivo desse email: relatar mais uma das minhas viagens, da maneira mais longa possível. Está ficando batido, mas o que é batido acaba virando tradição. E tradição é bom! Então, mantendo a tradição, começa mais um...
Diário de viagem sem fim do Mauro
Episódio de hoje:
Itália
Preparativos
Sempre gosto de exaltar como são cansativos e complicados os preparativos das minhas viagens. Dessa vez não poderei fazer o mesmo: a grande verdade é que decidi conhecer a Itália quinze dias antes de embarcar, não reservei nada, planejei muito pouco. Estabeleci cidades que gostaria de visitar, encaixei essas cidades de maneira (semi) lógica num planejamento tosco, comprei uma barraca de camping (para não ter que reservar albergues) e convidei mais quatro malucos para embarcarem nessa furada comigo.
Os quatro malucos foram os já célebres Juliana, Ewerton e Pedro, acompanhados de Ruth, veterana nossa que mora em Paris e que nunca havia conhecido.
Consumidores fiéis, voamos novamente de Ryanair (aquela companhia baratíssima cujos aeroportos têm teto de lona) e, sem atrasos nem bagagens extraviadas, dia 25 de Junho pisávamos em território italiano.
Monza e a arte de acampar
Chegamos de tarde na Itália, no aeroporto Ryanair Milano (que fica em Bérgamo, a 1h de Milão...), alugamos um carro e tentamos visitar a cidade. Meia-hora na Itália foram suficientes para confirmarmos o que todos já tinham nos alertado: a sinalização é caótica. Seguindo a estrada para Milão, nos deparamos com uma amigável placa dizendo "Milano 28km". Continuando pela mesma estrada, um bom tempo depois, outra placa: "Milano 18 km". Felizes, já que a estradela suspeita que seguíamos havia algum tempo parecia nos levar ao lugar certo, avistamos uma outra placa, dez minutos depois: "Milano 30 km".
Resolvemos ficar por Monza mesmo, que estava perto e tinha um camping promissor (nas cercanias do autódromo de fórmula 1).
Encontrar o camping foi um belo exercício de italiano. Com frases sem sujeito nem verbos e quarenta minutos de tentativas, conseguimos encontrar o que procurávamos.
O pão-duro Ewerton e sua magistral barraca nos reservaram a melhor surpresa da noite (já que o chuveiro era frio e a água, não potável): não tinha como não rir do desespero do garoto ao constatar que sua barraca (que custara quase três vezes menos que a minha, vagabunda) já estava montada. "Mas será que é só isso mesmo?". Era. E dormiram sempre dois lá, numa barraca onde mal cabia um. Nascia o mito do Château d'Ewerton.
Milano
No dia seguinte, miraculosamente, conseguimos chegar em Milão. Cidade na qual, nas palavras de um amigo milanês, "não há nada de muito bonito para se visitar".
Meu guia turístico recomendava, como obras-primas da cidade, a fachada de sua catedral (que levou alguns séculos para ser concluída) e a Santa Ceia, de da Vinci, que ficava no refeitório de um cenáculo. Acontece que a catedral estava em reformas (assim como grande parte da Europa), e sua fachada coberta de tapume. E a Santa Ceia, infelizmente, precisava de reserva com muita antecedência (coisa que, obviamente, não tínhamos).
A cidade não é feia. É rica (uma das mais ricas da Itália), berço da moda (muitas lojas de grife) e antiga. Se soubesse que conheceria buracos como Nápoles (descrita posteriormente), talvez tivesse dado mais atenção a Milão.
Mas a grande decepção mesmo foi minha tentativa frustrada de comer um bife à milanesa. Dentre toda a gama de restaurantes que se mostrava para nós, resolvemos escolher o mais barato (por motivos óbvios!). Pedimos três peitos de frango à milanesa e um bife à milanesa. Os peitos de frango chegaram rápido, esperei pelo bife. Quando todos já tinham terminado seus pratos e minha fome estava brava, resolvi perguntar para o garçom, bravo, o que era do meu bife. E o safado me respondeu "Bife? Mas vocês não pediram bife...". O ignorante não tinha entendido meu italiano! Também, não o culpo: o pessoal do norte não está muito habituado com o italiano bem falado de Roma.
Moral da história: contentei-me com um Big Mac nada à milanesa.
Para concluir nossa frustrante passagem por Milão, nossa odisséia ao tentar abandonar a cidade. Mais difícil do que chegar lá, só sair mesmo. Nosso objetivo era Bérgamo (onde passaríamos no aeroporto para pegar o Pedro, que se juntava a nós no segundo dia de viagem). Fizemos o que qualquer um faria e seguimos placas para a cidade. Depois de meia-hora fazendo isso, chegamos a uma trifurcação sem nenhuma sinalização (sádicos italianos!). Aleatoriamente, escolhemos um dos caminhos para, meia-hora depois, voltarmos às primeiras placas que tínhamos avistado. Escolhemos um outro caminho, também aleatoriamente e, meia-hora depois, voltamos para o mesmo ponto de partida. Ainda mais calmos que de início, resolvemos pegar um caminho alternativo. Mais meia-hora e chegamos num ponto com uma placa "Bérgamo para cá, Nada de Bérgamo para lá". Plácidos, seguimos rumo a Nada de Bérgamo. Quarenta minutos de engarrafamento depois, chegávamos ao aeroporto de Bérgamo.
Milão? Eu recomendo!
Verona
O que dizer de Verona? Simpática, bonitinha. E nada mais. Visitamos praças, andamos pelo centro medieval, conhecemos a Casa di Giulietta (a namorada do Romeu). Sem desventuras, nada de mais.

0 comentários:
Postar um comentário